‘A Ira de Narciso’ – ‘É que Narciso acha feio o que não é espelho’ – Caetano Veloso

Gilberto Bartholo

Gilberto Bartholo

68 anos, é ator, professor, crítico teatral e jurado do Prêmio Botequim Cultural.

Da mitologia grega, o nome de NARCISO parece dos que mais próximos estão do povo e da nossa contemporaneidade, e sua história é, por demais, conhecida e passada de geração a geração. Ele era filho do deus do rio Cefiso e da ninfa Liríope e representa um forte símbolo da vaidade e do orgulho, sendo um dos personagens mitológicos que sempre foi, e ainda o é, muito citado nas áreas da psicologia, filosofia, letras de música, artes plásticas e literatura.

“Reza a lenda que”, no dia do seu nascimento, o adivinho Tirésias previu que NARCISO teria vida longa, desde que jamais contemplasse a própria figura. NARCISO era um rapaz plenamente dotado de beleza. Cresceu e se transformou num jovem bonito, que despertava amor tanto em homens quanto em mulheres, mas era muito orgulhoso e tinha uma arrogância, que ninguém conseguia quebrar. Até as ninfas se apaixonaram por ele, incluindo uma chamada Eco, que o amava incondicionalmente, mas o rapaz a menosprezava. As moças desprezadas pediram aos deuses para vingá-las. Para dar uma lição ao rapaz frívolo, a deusa Némesis, aqui como um aspecto de Afrodite, o condenou a apaixonar-se pelo seu próprio reflexo numa lagoa. Encantado pela sua própria beleza, NARCISO deitou-se no banco do rio e definhou, olhando-se na água e se embelezando. Depois da sua morte, Afrodite o transformou numa flor, o narciso.

Há, ainda, outra versão, que dá conta de que NARCISO se apaixonara por sua irmã gêmea, e não por si mesmo, e que a imagem que ele vira, refletida na água, era a dela e não a sua própria, já que, além de parecidíssimos, ambos se vestiam de forma igual.

Em função do mito de NARCISO, surgiu, no léxico português, o substantivo “narcisismo”, significando o amor, a paixão pela própria imagem, e o adjetivo “narcisista”, indicando aquele(a) que é muito voltado(a) para si mesmo, para a própria imagem. Acima de tudo, vaidoso(a). “É que Narciso acha feio o que não é espelho”. (Caetano Veloso).

 

SINOPSE

 

solo é uma “autoficção” do dramaturgo uruguaio, radicado em ParisSERGIO BLANCO, um monólogo, em primeira pessoa, que conta a passagem do autor por Ljubljana, capital da Eslovênia, onde fora dar uma palestra sobre o famoso Mito de NARCISO.

O drama se passa em um quarto de hotel, o de número 228, onde o autor está hospedado, durante os últimos preparativos para a conferência, enquanto descreve os vários encontros, alguns bem íntimos, com um jovem esloveno, de nome Igor, que acabara de conhecer, por um aplicativo de encontros e relacionamentos.

A partir da descoberta de uma mancha de sangue no carpete do referido quarto de hotel, o relato da viagem profissional e dos encontros amorosos dá lugar a uma intriga policial, com um final trágico, na medida em que o personagem tenta, com a ajuda, a distância, de um amigo, desvendar o mistério que envolve a citada mancha de sangue e outras, que vai descobrindo aos poucos, enquanto dura sua estada na cidade.

Alternando, sutilmente, narraçãopalestra e confissão,  A IRA DE NARCISO é uma jornada arriscada, que conduz o espectador em um labirinto do eu, da linguagem e do tempo.


Um texto autoficional é aquele em que se amalgamam personagemautor e narrador, na mesma proposta ficcional, muito mais própria da literatura convencional do que da dramática. Pode-se dizer que é uma raridade, no TEATRO. É preciso que o espectador esteja bem atento à “representação”, para discernir onde pode traçar a fronteira entre o que é e o que não é, o real e a ficção. Isso torna o espetáculo, de certa forma, se não houver uma concentração total do espectador, difícil de ser entendido.

No Rio de Janeiro, é a primeira temporada do solo (promete, e merece, outras), que já cumpriu uma, longa e vitoriosa, grande sucesso de público e de crítica, na capital paulista, pela qual GILBERTO GAWRONSKI está indicado ao “Prêmio Shell de Teatro – 2018”, na categoria de Melhor Ator, além de ter sido um dos maiores sucesso no último Festival de Teatro de Curitiba, dos mais importantes do Brasil, se não for o maior de todos, no qual, também, se destacou como uma das grandes atrações, grande sucesso, em todos os níveis. O espetáculo também concorre, no “Prêmio Aplauso Brasil”, em três categorias: Melhor AtorMelhor Espetáculo de Produção Independente e Melhor Arquitetura Cênica. Em São Paulo, a peça percorreu algumas cidades do interior e encerrou o ano de 2018, abrindo o Festival de Teatro da Amazônia.

montagem foi idealizada por CELSO CURI, também tradutor do original e produtor, que comprou os direitos de exibição da peça, no Brasil, logo após ter ficado encantado com a versão a que assistiu, no Uruguai, dirigida pelo próprio autorSERGIO BLANCO, que também assina o texto de “Tebas Land”, grande sensação da temporada carioca de TEATRO de 2018, ainda em cartaz. Afirmo que ambos os textos se equivalem, em incomensurável qualidade, ainda que tratando de temas bem diferentes.

Na visão da diretoraYARA DE NOVAES, a peça é “como um portal de reflexão sobre o artista contemporâneo, em embate consigo mesmo, com sua criação, o mundo das coisas e a natureza”. Acrescenta que “o texto reflete sobre o efeito hipnótico que a nossa imagem exerce sobre nós e como essa autocontemplação pode ameaçar a nossa vida”.

Um dos mais importantes dramaturgos latino-americanos contemporâneosuruguaio, de nascimento, porém morando em Paris, desde 1998SERGIO BLANCO também já assinou muitas grandes direções, com algumas premiações nessa área. Por seus temas universais e atemporaisBLANCO consegue atingir o sucesso em qualquer canto do mundo e suas peças são representadas nos mais diversos idiomas; e o mais importante de tudo: aclamadas, pelo público e pela crítica, e premiadas. Nos últimos anos, seu TEATRO vem sendo representado na FrançaAlemanhaInglaterraEspanhaItáliaGréciaSuíçaLuxemburgoEstados UnidosArgentinaBrasilChileColômbiaCubaMéxico e Peru. Isso diz tudo a respeito desse grande artista, que, ainda por cima, também é ator.

A arquitetura textual que BLANCO utiliza, nesta peça, é, por demais, interessante, ao mesclar realidade com ficção, utilizando-se de “flash-backs” e alguns solilóquios, instigando o público a estar atento ao que ele mesmo diz não ser um “monólogo”, e sim, um “relato”, cheio de suspense e doses de terror, ainda que brando, não chocante, excluindo-se a parte final da peça. Na verdade, o foco maior do texto recai sobre um estudo do homem contemporâneo e sua habilidade de conviver com sua própria existência e seu domínio sobre o que lhe está à volta, na luta pela sobrevivência, candidato a resistente ao caos em que estamos mergulhados.

Não tenho o objetivo e, menos ainda, a pretensão de escrever acerca desta OBRA-PRIMA sob o ponto de vista de um aprofundamento filosófico, até porque me falta muita base para isso. Volto o meu foco mais para a parte técnica do espetáculo, que julgo ser a função primeira de um crítico de TEATRO. Arrisco-me, todavia, a dizer que, antes de tudo, vejo o texto e sua montagem, principalmente no Brasil, como um ato de muita coragem e resistência, do que estamos tão necessitados.

SERGIO BLANCO, nesta dramaturgia, está alicerçado em interessantes metáforas e citações artísticas, que valorizam a sua escrita, como, por exemplo, o fato de um homem estar à cata de um seu semelhante, a ponto de convidar um desconhecido, à procura de sexo, para a intimidade do seu quarto, um ser do mesmo gênero, como, talvez, numa tentativa de encontrar uma resposta para a sua própria existência. O como se ver no outro igual e, ao mesmo tempo, diferente. Um ser que lhe proporciona uma troca de prazeres carnais e lhe estimula o sentimento narcisista, em que predomina a “certeza” de uma superioridade, em relação ao, outro. Não falta, no texto, a marca do grande poeta francês pós-romântico e precursor do surrealismo Jean-Nicolas Arthur Rimbaud, com sua consagrada citação, que subverte a gramática, mas contém uma essência muito forte e significativa, o “Je EST un autre”, que pode sugerir “a ideia do EU separada do nosso eu interior”, em vez de “Je SUIS um autre”, enxergando-se mais no outro do que em si mesmo. E, ainda, podem ser contabilizadas outras referências culturais, como a do filósofo e pensador alemão Martin Heidegger e seu questionamento metafísico, e seu contemporâneo, o, também, filósofofrancêsGilles Deleuze.

Falar da direção do espetáculo significa dar mil gritos de “BRAVO!”, para o trabalho de YARA DE NOVAES. Embora seja um texto difícil de ser assimilado, YARA consegue torná-lo mais acessível, ao grande público, fazendo uso de pinceladas de humor irônico e ácido. Ela didatiza o texto, procura variar bastante as marcações e explorar os meandros do “relato”, contando, obviamente, com o imenso talento de ator, que GILBERTO GAWRONSKI traz consigo. YARA optou por uma participação total da plateia, com a quebra da quarta parede e outras ideias geniais, como a de expor a nudez do personagem, como forma de mostrar seu comportamento narcisista, sem nenhum pudor. Ela sabe valorizar os momentos de plena narrativa com os de “ira” do personagem, quando este se volta contra todas as mazelas que incomodam e estão diminuindo e destruindo o ser humano, sem que alguém se dê conta disso e contra tais absurdos se rebela. Como ele; na teoria, pelo menos. Trabalho magnífico!!!

Não sei que adjetivo poderia encontrar para definir GILBERTO GAWRONSKI, nesta sua irretocável atuação, ele que é, sem a menor dúvida, um dos melhores atores brasileiros, que sempre estará presente numa lista de “tops”GILBERTO é grandioso em todos os trabalhos que faz, seja na comédia, seja, com maior destaque, no drama. Acompanho sua carreira, desde seus primórdios, e, quando o vi, atuando em outro monólogo, “Ato de Comunhão”, em 2011numa interpretação tão visceral quanto a que estamos analisando, achei que, ali, ele havia atingido o seu ponto máximo de exploração de um talento incrível, para atuar. Estava quase enganado, visto que ele volta a brilhar, da mesma forma, no projeto “A IRA DE NARCISO”. O ator disse, numa entrevista, que tenta, sempre, “estabelecer um contato individual com todos os espectadores”. Sim, ele o faz, também, agora, antes de a peça começar, recebendo os espectadores, conversando com os amigos e conhecidos e, no dia em que assisti ao solo, até dançou, com uma produtoraMaria Siman, antes do terceiro sinal. “A verdade não está nos fatos que são narrados, mas no ato de narrá-los. A história não se dá pelo papel que interpreto, mas pelo que estou relatando”, diz ele, com relação à peça em tela. Não há uma cena, apenas, em que GILBERTO não se destaque. Durante 100 minutos, todos os focos são para ele. BRAVÍSSIMO!!! Além de grande atorGAWRONSKI é um artista versátil, pois também é diretor, com muitos sucessos em seu currículo, vencedor de muitos prêmios, como ator e diretor, até como cenógrafo. Já se apresentou e conseguiu prêmios, também, no exterior.

Justificando a sua classificação como um dos melhores cenógrafos brasileirosANDRÉ CORTEZ concebeu um cenário muitíssimo interessante e “misterioso”, que vai se revelando aos poucos. Vão surgindo agradáveis surpresas e entende-se o porquê de cada peça em cena. Além de uma mesa, que não se mantém durante todo o espetáculo, com os cavaletes que a sustentam retirados de cena e seu tampo colocado no chão (Decodifiquei isso como o lago em que NARCISO se viu refletido. Se for uma “viagem”, de minha parte, puxem-me para baixo, por favor, numa aterrissagem “forçada”, porque adoro flutuar nessas conjecturas.). O grande destaque do cenário vai para as caixas pretas, apoiadas em tripés, das quais saem parte da iluminação do espetáculo e dentro das quais observam-se miniaturas, mostradas ao público, quando elas são giradas, mudando as suas faces, em relação à plateia. Em algumas, uma dessas faces é um espelho, elemento que não poderia faltar nesta concepção cenográfica e que também está presente, em dois pontos da parede do fundo.

Importantíssima, para o aspecto estético do espetáculo é a iluminação, de WAGNER ANTÔNIO, que resulta num belo trabalho, reunindo o belo, o prático e o providencial.

FÁBIO NAMATAME ocupou-se do figurino, discreto e muito bem talhado, assim como DR. MORRIS soube encontrar as canções e os sons incidentais que combinassem com a proposta da direção.

“A IRA DE NARCISO” faz parte do pacote das grandes montagens que, felizmente, abriram o ano teatral de 2019, no Rio de Janeiro, e já está sendo um grande sucesso, de público e de crítica, ainda que recém-estreada. Os comentários que ouvi e as conversas que mantive com alguns amigos, à saída da sessão a que assisti, comprovam que a peça chegará, ao final do ano, como detentora de muitas indicações a prêmios. Na minha concepção, pelo menos.

Vida longa a esta OBRA-PRIMA!!!

E VAMOS AO TEATRO!!!

OCUPEMOS TODAS AS SALAS DE ESPETÁCULO DO BRASIL!!!

A ARTE EDUCA E CONSTRÓI!!!

RESISTAMOS!!!

COMPARTILHEM ESTE TEXTO, PARA QUE, JUNTOS, POSSAMOS DIVULGAR O QUE HÁ DE MELHOR NO TEATRO BRASILEIRO!!!

Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para gilberto.bartholo@rioencena.com.br.

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