‘A Garagem’ fixa o grupo Nómada como um dos mais importantes da temporada teatral carioca

Péricles Vanzella

Péricles Vanzella

31 anos, é doutorando em Artes Cênicas pela Unirio, ator, sapateador e cantor.

“A Garagem” é a continuação do trabalho do grupo Nómada, com direção de Gunnar Borges. Para quem não conhece, este é o mesmo grupo por trás de “A Cozinha”, espetáculo que ficou em cartaz em 2017 e que também inseria-se no gênero “sítio-específico”, ou seja, uma obra criada para determinado espaço, onde o ambiente circundante desempenha papel fundamental. “A Garagem”, contudo, mostra importante desdobramento da estética da companhia, única do gênero no Rio de Janeiro.

O texto de “A Garagem” (Felipe Haiut) traz um enredo de suspense digno de uma série, gerando o questionamento, o tempo inteiro, sobre o que virá a seguir. Pensado para o espaço, é impressionante a relação intrínseca que o texto estabelece com a garagem onde a peça se passa. Aliás, é nesta relação íntima entre os diversos elementos (provavelmente elaborados em diálogo, o que é fundamental) que reside, na minha opinião, a maior digital e o brilho do grupo Nómada.

Falar de cenário é um tanto curioso neste caso… Não obstante, há que se ressaltar o inteligentíssimo aproveitamento do espaço oferecido. O grupo consegue separar ambientes e discernir bem cada um deles: portão, entrada e interior. O portão da garagem é o limite do mundo dos personagens, a fronteira com o espaço público; o local de espera, de ansiedade e de vigília, em linhas gerais. A entrada para a garagem é o reduto das apresentações, tanto das personagens quanto do enredo; é quem dá a cor e o ritmo do espetáculo, e prepara o terreno para o que virá a seguir, no interior da garagem: este, por fim, é o espaço das revelações, desdobramentos e reviravoltas.

Os atores personificam um naturalismo raro no teatro contemporâneo carioca. Através dele, conseguem congregar a comicidade da relação entre os personagens com a tensão, alívio, ódio, dos momentos do enredo.

Com espetáculos e grupos desta envergadura, desvalorizar a diferença entre história e personagens é se limitar a uma parcela ínfima da experiência. No caso específico do Nómada, desconsiderar qualquer tipo de relação com o espaço, seja por parte do grupo seja por parte da plateia, é negar a cereja do bolo e a grande beleza de suas montagens. Não percam!

Um abraço e até domingo que vem!
Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para pericles.vanzella@rioencena.com.br.

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