‘A Festa de Aniversário’ – Assim é, se lhe parece; ou não

Gilberto Bartholo

Gilberto Bartholo

67 anos, é ator, professor, crítico teatral e jurado do Prêmio Botequim Cultural.

Tenho sempre uma enorme admiração pelos diretores que resolvem encenar espetáculos de determinados autores, por serem textos de difícil montagem, como “A FESTA DE ANIVERSÁRIO”, de HAROLD PINTER, em cartaz no Teatro Poeira.

No caso, o foco da minha admiração é GUSTAVO PASO, que, fora da sua companhia, como convidado, dirige uma interessante montagem do consagrado dramaturgo britânico, o qual, ao lado de Samuel Beckett e Eugène Ionesco, forma o tripé de apoio para o chamado Teatro do Absurdo, contestado por muitos, aceito pela maioria, da qual faço parte, sem, no entanto, incensá-lo, ainda que goste muito do texto da peça ora analisada.

Além de grande dramaturgo, um dos maiores do século XX, PINTER, falecido em 2008, aos 78 anos de idade, foi, também, ator, diretor, poeta, roteirista e, certamente, um destacado e incômodo ativista político. Recebeu o Nobel de Literatura, de 2005, e o prêmio “Companion of Honour”, da Rainha da Inglaterra, pelos serviços prestados à literatura.

Das 29 peças que escreveu, “A FESTA DE ANIVERSÁRIO” (“The Birthday Party”), escrita em 1957, é a que ocupa, internacionalmente, um lugar de destaque, a despeito de ter sido um fracasso, quando de sua estreia, redimindo-se, posteriormente, em outras montagens.

PINTER é um dos mais importantes renovadores do teatro moderno e, nas suas peças, são criadas situações em que personagens “normais”, em suas vidas cotidianas, são colocados, repentinamente, frente ao inesperado e indesejado.

Ninguém vai assistir a uma peça de PINTER, achando que permanecerá na sua zona de conforto, encontrando um espetáculo com princípio, meio e fim claros e cenas bem definidas, durante todo o espetáculo, que vai entender tudo, que lhe será dado “de graça”. Do nada, surgem personagens “estranhos”, provocando ou propondo situações bizarras, grotescas; insólitas, no mínimo.

E a tendência do espectador é, a princípio, ficar meio perdido, procurando “entender” o que está se passando, até desistir e deixar a imaginação dar a mão aos personagens e caminhar, com eles, por “labirintos incertos”, quase um pleonasmo.

Dentro da dramaticidade do texto, cabe lugar para um humor cáustico e quase injustificável – seria cômico, se não fosse sério –, o qual contribui pra definir os dois lados antagônicos em que se encontram os personagens.

SINOPSE

O texto conta a caça enigmática a STANLEY (ALEXANDRE GALINDO), um pianista, “auto-exilado” em uma pensão humilde, em uma praia qualquer.

Os donos, MEG (ANDRÉA DANTAS) e PETEY (MARCOS ÁRCHER), hospedam STANLEY há quase um ano, o que faz dele um hóspede residente, o único em todo esse tempo.

No dia do seu aniversário, os moradores recebem a inesperada e estranha visita de dois homens, NAT GOLDBERG (ROGÉRIO FREITAS) e MCCANN, nesta montagem, chamado de MAX (GUILHERME MELCA).

A chegada dos novos hóspedes vai afetar o comportamento dos moradores, desencadeando uma série de acontecimentos imprevisíveis.

Isso é o Teatro do Absurdo, que permite, ao espectador, “viajar” e fazer as mais diversas leituras sobre o que vê. Reparem que, na sinopse, encontramos, não por acaso, os vocábulos “enigmática” (“caça” – ?), “auto-exilado” (Por quê?), “qualquer” (praia – indefinição geográfica), “estranha” (visita) e “imprevisíveis” (acontecimentos – não especificados). Já não é o suficiente para aguçar a curiosidade de quem não conhece a peça? Já não basta para gerar, em quem gosta de um bom TEATRO, o desejo de ver, o mais rápido possível, o espetáculo? Essa capacidade de o autor “oferecer, ao público, uma instigação do imaginário individual e coletivo” (extraído do “release”) é uma de suas marcas registradas, na dramaturgia, e, certamente, um aspecto que atrai seu público cativo.

Em “A FESTA DE ANIVERSÁRIO”, a trivialidade cotidiana de alguns personagens é abalada, ameaçada, por elementos-surpresa, que vão dar nós nas cabeças dos espectadores, mas, ao mesmo tempo, vão fornecendo indícios para várias descobertas.

Que passado guarda STANLEY, qual a sua origem e o que o prende àquela pensão? Teria ele “contas a pagar”? E a quem? E por quê? O que o faz escolher (ou não) morar num lugar que não é seu, que não guarda uma identificação total entre sua personalidade e o ambiente em si (Ou ele já estaria acostumado, anteriormente, a um ambiente inóspito como aquele?)?

Que motivos teriam os dois “forasteiros”, na determinada missão de alijar o músico do seu universo artístico e, por extensão, a pessoa do mundo? Que interesse teriam em fazer calar a sua arte? Seria uma metáfora da perseguição aos artistas, sempre imposta pelos regimes totalitários?

O que há de comum e verdadeiro, na relação entre o casal MEG e PETEY? Há amor e cumplicidade entre ambos? O que os une? E por que e para quê?

Qual o significado da comemoração daquele aniversário, de forma tão patética e disfuncional?

A cena em que STANLEY, sem entender o porquê (Será?), é metralhado de perguntas sucessivas, por parte dos “visitantes enigmáticos”, anunciados e já aguardados pelo aniversariante, feitas num ritmo frenético, o que não lhe permite o mínimo de tempo para esboçar uma resposta, lembra muito as cenas que vemos, em representações, seja nos palcos, seja nas telas, relacionadas aos interrogatórios a que eram submetidos os presos políticos, durante o negro período da ditadura militar no Brasil.

Se tudo, neste espetáculo é valorizado, feito com muito esmero e precisão, o que o torna um dos melhores da atual safra de peças em cartaz, no Rio de Janeiro, um dos maiores acertos sai das mãos do diretor, GUSTAVO PASO, que conseguiu dar forma ao pensamento de PINTER, mantendo-lhe as características principais, acrescidas de seu tino de grande diretor. PASO, sem abandonar, em momento algum, todos os meandros que o texto pode sugerir, apostou num competente elenco, do qual soube extrair o seu melhor e criar a atmosfera do absurdo tangível do texto, para dar margem às diversas leituras jogadas na mesa.

No elenco, encontramos profissionais que se credenciam, com seus talentos, a prêmios relativos à atual temporada.

Impressionaram-me bastante, sem que isso possa ser considerado uma novidade ou surpresa, os trabalhos de ROGÉRIO FREITAS e ANDREA DANTAS, sem desmerecer nenhum outro.

Como NAT GOLDEBERG, ou, simplesmente, GOLD, ROGÉRIO se mostra, a meu juízo, na fase mais madura de sua brilhante carreira, que acompanho, desde há muito, e que já me proporcionou a alegria de ver o grande ator interpretando inesquecíveis papeis. Aqui, nesta “FESTA”, porém, como um “legítimo” representante do poder totalitário, absoluto, ditatorial, na pele de um implacável e sanguinário inquisidor, o ator provoca a ira da plateia, por sua total e “inexplicável” brutalidade, e a consequente piedade por STANLEY, um joguete em suas mãos. Mais um grande personagem para a sua vasta galeria.

ANDREA DANTAS atrai, para si, todas as luzes, quando está em cena. É excelente a sua composição para a personagem MEG, que vive num outro mundo, ou o que procura criar, um mundo que ela bem sabe só existir nos contos de fada. É uma digna representante da submissão feminina, embora, em determinados momentos, tente fazer valer sua vez e voz. Sem entender bem o porquê, ela percebe que o mundo está por ruir, mas não perde a sua ingenuidade, o seu otimismo, a sua vocação onírica, fabricados. É incapaz de conceber – ou se nega a – o horror próximo a ela. Durante a cena da patética festa de aniversário, tive vontade de aplaudi-la em cena aberta, mas me contive, para não quebrar o clima, embora tenha a certeza de que teria sido seguido por muita gente da plateia.

Para MARCOS ÁRCHER, reservo congratulações pelo brilhante trabalho como PETEY, um aspirante a um patamar superior, na escala social, desejo que, no fundo, bem no seu íntimo, embora possa parecer o contrário, sabe que jamais alcançará, por ser um tonto, ao mesmo nível de vulgaridade e limitação da mulher, MEG. Um idiota útil a um sistema.

E o que dizer do trabalho de ALEXANDRE GALINDO, como STANLEY? No mínimo, que é excelente! Deve ter sido bastante difícil, para o ator, compor o personagem, com a missão de preservar tantos enigmas, de agir, de modo a confundir bastante a cabeça do espectador, sem dar pistas ou gerar “spoilers”. À medida que o texto vai se desenvolvendo, o público só faz ampliar seus questionamentos sobre a nebulosidade que envolve o personagem, que vai desde sua origem, passando por sua chegada àquela pensão e a longa permanência nela, o aguardo das duas visitas, o porquê de ser tão violentado e suportar o “castigo”, o perigo que pode representar para algo ou alguém. Ele “purga”, sem esboçar qualquer reação de defesa.

Pode-se associar ao personagem, como já sugerido acima, a figura do artista, que, com sua visão crítica e contestadora, tanto “incomoda”, nos mais variados sistemas políticos, principalmente aos de exceção. Isso faz com que ele se encapsule, procure viver como um caramujo, que se esconde na própria casa, utilizada como uma carapaça, a qual tem a função de protegê-lo do que não sabemos.

GUILHERME MELCA também defende, com bastante firmeza, o personagem que lhe coube. MCCANN corresponde ao capataz do senhor, ao executante da tortura, das histórias relacionadas à ditadura. Praticamente, um acéfalo, cumpridor de ordens e extremamente violento, taciturno, que fala mais por seus deploráveis gestos que por palavras.

Completando o fabuloso elenco, resta citar o trabalho de RAÍZA PUGET, como LULU, que, a despeito de uma participação mais parcimoniosa, na trama, talvez seja das que mais contribuam para a “obscuridade” (motivo maior para a desaprovação da peça, quando de seu lançamento, por parte do público e da crítica) do texto. Uma ótima participação da atriz!

A propósito, podemos considerar como membro do elenco, o excelente pianista ANDRÉ POYART, que é o responsável pela trilha sonora da peça, incluindo alguns “hits”, executada ao vivo, e que o diretor achou por bem – outro grande acerto – manter em cena, ainda que sem destaque ao alcance da vista do espectador, ao alto. Muitos nem o percebem.

GUSTAVO PASO também assina o cenário da peça e o faz de forma muito apreciável. Os elementos cenográficos caminham paralelamente ao clima proposto pelo texto, dialogando com o que há de mais decadente naquele universo. PASO optou por cores sóbrias, mais escuras, em tons “apastelados”, que evidenciam o desgaste do ambiente, o qual, metaforicamente, está atrelado às vidas de todos os que por ele circulam. Há um quê de bolor no ar, de deteriorado ou estragado; podre. Toda ação se passa numa sala, onde são feitas as refeições, como numa pensão mesmo, contígua à uma cozinha, que fica à mostra.

Merecem destaque os ótimos figurinos, de LUCIANA FÁVERO, também incorporados ao clima da peça, alguns deles ganhando realce, por certos detalhes, como os relacionados à personagem LULU e o ridículo e pueril vestido que MEG resolve usar durante a festa de aniversário, pondo em relevo a sua mediocridade e alienação.

Que inteligente e adequada a iluminação, de BERNARDO LORGA, permitindo sombras, que dificultam, em determinadas cenas, uma visualização nítida dos personagens, envolvidos na nebulosidade que os caracteriza! BERNARDO optou, com precisão, por uma luz fraca, que não tem a intenção de pôr em relevo as imagens que não merecem ser tão expostas, por feias que são, pelo tanto que incomodam.

“A FESTA DE ANIVERSÁRIO” é um presente – perdão pelo trocadilho, ou algo parecido – que recebemos, os amantes do bom TEATRO, e, evidentemente, uma das melhores montagens em cartaz, no momento.

É bom que se diga que, ainda que escrito há 60 anos, este texto continua atual, instigante e mexendo com a cabeça dos espectadores.

Não é TEATRO digestivo, ainda que classificado como “comédia”, só para fazer rir. O riso que ele provoca é fruto de um nervoso, por parte do espectador, por se sentir impotente, diante das situações de que está sendo testemunha.

Vá ao Teatro Poeira, sem se arvorar de dono da verdade e aberto ao debate consigo mesmo.

Recomendo muito o  espetáculo!

Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para gilberto.bartholo@rioencena.com.br.

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