‘A Busca’ faz reflexão conceitual e universal a partir de linguagem simbólica

Péricles Vanzella

Péricles Vanzella

31 anos, é doutorando em Artes Cênicas pela Unirio, ator, sapateador e cantor.

Em cartaz no Teatro Serrador, na Cinelândia, “A Busca” é reflexão antropológica do Grupo Moitará, que joga luz também sobre semiologia no teatro e na vida. Bonito e relativamente curto, o espetáculo consegue contrabalançar hermetismo.

O Grupo Moitará realiza, há 30 anos, um trabalho contínuo e profundo sobre a máscara teatral e a arte do ator. Como todo processo de pesquisa e investigação, o foco não é um produto final, e sim o aperfeiçoamento da linguagem e de algumas reflexões. Assim, é importante ter em mente que tanto a peça quanto esta crítica não enfocam especificamente a montagem, mas sim possíveis contribuições de suas proposições.

A principal delas diz respeito ao feminino como força motriz, ou pelo menos como uma força presente, nos mais diferentes contextos. Nada mais atual: estamos em uma época (no mundo, mas particularmente no Brasil) que coloca em cheque definições de masculino e feminino e suas relações com os conceitos de homem e mulher. A peça é muito feliz em sua abordagem, pois consegue discernir aspectos femininos (cuidar, por exemplo, certo tipo de “maternidade”) de papeis femininos (servir chá às “visitas”), e ambos do sexo biológico (mulher).

Nesta investida, a máscara possui um simbolismo fundamental, não só por seu caráter arquetípico, mas também pelo ato de retirá-la, em cena, e revelar uma atriz, Erika Rettl. Assim como o uso da máscara, também a cenografia é muito simbólica na ambientação de um “lugar nenhum”, ou de um “qualquer lugar”, sem abrir mão da beleza e de certas convenções sociais e teatrais. Uma delas é a tonalidade neutra (crua, bege), que sugere um local inóspito (e assim, automaticamente, realça a figura feminina que ocupa o palco); outra é a composição do espaço cênico em nichos, que não só permite diversas interações como abriga inúmeros indícios de lugares e tempos indefinidos.

Mesmo conseguindo comungar forma e conteúdo (isto é, uma cena que condiz com o texto), “A Busca” possui uma narrativa difícil de ser acompanhada, pois exige do espectador um raciocínio puramente conceitual ao qual não estamos acostumados.Não obstante, a beleza da universalidade (temporal, espacial, cultural…) do espetáculo e o compromisso do Grupo Moitará com a potência fabular da linguagem teatral fazem a complexidade valer a pena.

Um abraço e até domingo que vem!

Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para pericles.vanzella@rioencena.com.br.

 

 

 

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