’40 Anos Esta Noite’ – Da arte de se tocar na ferida com delicadeza e cuidado

Gilberto Bartholo

Gilberto Bartholo

68 anos, é ator, professor, crítico teatral e jurado do Prêmio Botequim Cultural.

“Uma ideia na cabeça e uma câmera na mão”, ou vice-versa, não importa. (Glauber Rocha). E surgia o Cinema Novo. Mas não é de cinema que estou aqui, para falar. É sobre TEATRO. Um bom TEATRO. Um excelente TEATRO, daqueles que nos arrebatam e nos fazem voltar para casa extremamente felizes. Estou falando de “40 ANOS ESTA NOITE”, em cartaz no Teatro IpanemaRio de Janeiro (VER SERVIÇO).

No caso, aqui, a ideia veio da cabeça de GISELA DE CASTRO, autora do argumento, e a câmera foi substituída pelo computador, que serviu de instrumento para que FELIPE CABRAL desse forma a um dos melhores textos dos últimos tempos. Sim, amigos, esta peça é excelente, daquelas que nos despertam a vontade de voltar no dia seguinte, o que estou pensando em fazer, neste momento.

espetáculo, de uma forma muito delicada e sutil, trata da, tão em voga, questão da formação de novos modelos familiares, as famílias homoafetivas.

 

SINOPSE

 

comédia dramática LGBTI+ discute questões relativas à sexualidade, relações parentais, gênero e preconceito, através do encontro de dois casais homoafetivos, na noite de comemoração pelos 40 anos de GABRIELA (GISELA DE CASTRO).

Morando junto com sua namorada, CLARICE (KARINA RAMIL), ela convida um amigo de infância, BERNARDO (GABRIEL ALBUQUERQUE), e seu namorado JOÃO (FELIPE CABRAL), para uma discreta celebração, e surpreende a todos com o convite para que BERNARDO se torne o pai do filho que as duas estão tentando ter, sem sucesso, através da inseminação artificial.

A partir daí, chovem conflitos por todos os lados, de toda sorte, e o que era para ser uma comemoração se torna uma discussão calorosa e que parece jamais atingir o fundo de um poço.

O final nos revela uma grata surpresa.


texto, de FELIPE CABRAL, partindo de um argumento de GISELA DE CASTRO, é uma aula de boa dramaturgia, em todos os sentidos. FELIPE consegue inserir humor, o ótimo humor, numa seara tão séria e preocupante, que tem sido motivo de grandes debates, e embates, entre os que apoiam a adoção de crianças, por casais homoafetivos, e os que são radicalmente contrários a isso. Trata-se de um texto inédito, totalmente adequado ao momento de intolerância contra a causa LGBT+, a que estamos submetidos, num país que, infelizmente, está sendo (des)governado por um “ser” incompetente e, declaradamente, homofóbico, o qual instiga as massas de manobra à agressão aos homossexuais e simpatizantes da causa, que é, única e exclusivamente, um “problema” de cada um, e que tem de ser respeitado.

No programa da peçaBRUCE GOMLEVSKY diz que recebeu, com imensa alegria, o convite para dirigir a peça e que, assim que leu o texto, interessou-se pela sua atualidade e pela forma bem-humorada como, nele, se abordam temas importantes, que precisam ser discutidos na nossa atual realidade política, social e cultural. Perdão, BRUCE, mas qualquer diretor do teu conceituado gabarito teria tido a mesma reação. Fosse eu diretor de TEATRO, começaria a dirigir o espetáculo na hora, pelo aprofundamento da qualidade do texto. Raramente, nos dias atuais, encontra-se um, inédito, com tão incomensurável gabarito, em todos os sentidos.

FELIPE CABRAL resolveu mexer, com muito cuidado, num grande vespeiro e traz, para a discussão, aspectos muitos áridos, como a discriminação e o preconceito; a dificuldade de aceitação da sexualidade alheia; a falta de diálogo, para que sejam aparadas as arestas quanto às diferenças, as quais são saudáveis e necessárias, além de ser uma realidade que ninguém pode negar. E a peçatecnicamente muito bem escrita, acaba por se tornar, nas palavras de BRUCE, “uma ode ao amor, à amizade, ao afeto, à família, em todas as suas formas possíveis com que o núcleo familiar se manifesta hoje, em todas as suas formas possíveis, imagináveis e inimagináveis.”. Com seu textoFELIPE dá voz a todos os que passam pelo mesmo sofrimento e lhes garante espaço para um grito de revolta e cobrança de respeito e justiça.

Basta de sustentar a visão hipócrita e, falsamente, cristã de que “uma família é formada por um homem e uma mulher, unidos pelos laços matrimoniais, que geram filhos”. Antes, eram apenas os biológicos; a adoção foi um capítulo posterior. E por que casais homoafetivos não podem gerar, por inseminação artificial, filhos; ou adotá-los? Quer aceitemos ou não esse fato, é fundamental que se respeitem os direitos de quem deseja fazê-lo e enxergar nisso uma nova composição familiar, tão normal e com direito à felicidade, como o arquétipo que a sociedade nos impõe.

Um dos pontos altos do texto, além da linguagem e da agilidade e inteligência empregadas nos diálogos, é a capacidade de conduzi-lo, o tempo todo, mesclando humor com falas mais dramáticas; não é uma comédia, como parece ser, de início, nem um drama rasgado; trata-se de uma deliciosa e inteligentíssima comédia dramático-romântica. Quando a discussão fica mais acalorada, à beira de um ataque de nervos, o humor chega, como válvula de escape, mas não por acaso, de graça; sempre presente com um tom crítico.

Antes de encerrar os comentários sobre a brilhante dramaturgia, quero parabenizar o ator FELIPE CABRAL, por ter incluído, o que me pareceu “caco”, mas que espero que seja incorporado, definitivamente, ao texto, a fala em que seu personagem faz sérias e justíssimas críticas ao senhor que, no momento, ocupa o cargo de maior responsabilidade da nação, sem que esteja preparado para isso, e lamenta o fato de um cidadão, no caso, um parlamentar, ter de recorrer ao autoexílio, para se livrar das ameaças de morte que vem recebendo, pelo fato de ser, assumidamente, “gay” e defender a causa de seus pares. Aproveito, também, para elogiar as falas em que o mesmo personagem apresenta dados estatísticos acerca das mortes e agressões a pessoas da população LGBT+, no Brasil – um verdadeiro absurdo, que precisa ter fim!!! Ainda quero elogiar o momento em que o personagem JOÃO conta a história do surgimento da bandeira símbolo do movimento LGBT+. Lindo e emocionante relato!

Passemos a tecer os devidos e merecidos comentários a um dos melhores diretores de TEATRO de sua geraçãoBRUCE GOMKLEVSKY, tantas vezes premiado e, no momento, com algumas indicações a prêmios, por trabalhos executados em 2018. Extremamente inteligente e exigente no que faz, BRUCE percebeu, de saída, que não precisava ser mais um inventor da roda e que toda a força do espetáculo estaria no incrível texto, de CABRAL. Como não pode, e não deve mesmo, trabalhar sozinho, cercou-se de excelentes profissionais, para ajudá-lo a erguer, sem patrocínio, a vitoriosa montagem, um grande sucesso, de público e crítica. Num primoroso trabalho de mesa, junto com os atores, foi definindo o perfil de cada um e encontrando a melhor zona de conforto para suas atuações, de modo que o espetáculo ficasse leve e, ao mesmo tempo, profundo. São ótimas as suas marcações e os mínimos detalhes, visivelmente, de direção, passados a cada ator/atriz.

Que elenco fabuloso!!! O quarteto está afinadíssimo, no mesmo tom, na mesma sintonia, no mesmo alto rendimento em cena. Da primeira à última, os talentos se revelam. Praticamente, não se pode falar em protagonismo, do ponto de vista técnico-didático, dentro da estrutura de um texto teatral, se bem que o “plot” gire mais em torno do desejo – mais que isso, da necessidade – de GABRIELA, de ser mãe, uma vez que já estava “ficando velha”, para a maternidade. Por outro lado, o envolvimento dos quatro personagens é tão integral, com relação à problemática, que todos ganham relevo na trama e cada um dos que os representam dá um “show” particular de interpretação. “São quatro personagens muito diferentes, que se veem diante de uma oportunidade única: formar uma família. Como cada um encara isso é o conflito que os empurra um contra o outro.”, diz o autor do texto, como consta no “release”, enviado por BRUNO MORAIS (MARROM GLACÊ ASSESSORIA DE IMPRENSA). A tarefa de representar GABRIELA, CLARICE, BERNARDO e JOÃO não poderia ser melhor executada do que é, por GISELA DE CASTROKARINA RAMILGABRIEL ALBUQUERQUE e FELIPE CABRAL, respectivamente. Já conhecia, e admirava, o trabalho de três, do elenco, mas, salvo engano, não tivera, ainda, a oportunidade e o prazer de ver GABRIEL ALBUQUERQUE atuando. Como é bom o seu trabalho!!!

Os elementos técnicos de suporte à peça funcionam perfeitamente. O cenário é “clean” e, principal e intencionalmente, quero crer, transparente, como devem ser todas as relações afetivas e amigáveis. A ação inteira se passa numa sala de jantar, com todas as peças (mesas e cadeiras) em acrílico transparente, incolor; todos os utensílios utilizados durante o jantar “festivo” também são transparentes e incolores. Acima da mesa, funcionando como uma gigantesca luminária, um conjunto de várias bolas, de igual forma, transparentes e incolores, que absorvem a excelente luz de RUSSINHO. O belo e criativo cenário é assinado pelo “craque” FERNANDO MELLO DA COSTACAROL LOBATO, sempre esbanjando bom gosto, criou lindos e bem talhados figurinos, com destaque para o macacão usado por JOÃO, de “jeans”, com detalhes de aplicações, vazadas, de plástico transparentes. Aí, já entram os meus devaneios: JOÃO é “gay” assumido, daí os apliques das transparências; por outro lado, seu namorado, BERNARDO, já teve namoradas e vive meio dentro do armário, enrustido, fora de seu círculo de amigos “gays”, talvez, por isso, trajando-se bem discretamente, no estilo “casual” fino. KLEITON RAMIL é o responsável pela trilha sonora da peça.

Muito distante do que possa parecer, o espetáculo não é voltado para o público LGBT+. É para todos. É para pessoas inteligentes, sensíveis e abertas ao diálogo. Creio que tudo o que FELIPE CABRAL intencionava, com seu magnífico texto, ele o consegue: fazer com que a reflexão seja o prato principal, servido naquele jantar, no lugar do tão esperado “bobó de camarão da CLARISSA” (Perdão: “CLARICCCCCCEEEEE!”), e que a plateia “sinta a tensão e pondere os pontos de vista de cada um, na construção dessa nova possível família” (Extraído do já citado “release”.).

Com o objetivo de “inserir os espectadores, de forma ampla, no universo LGBTI+”, a produção realiza, todas as 2ªs feirasapós a sessãodebates com pessoas de notável saber e envolvimento com a causa LGBT+.

 “Acredito que estamos vivendo uma transição, em termos de visibilidade desta temática. Eu acho sensacional que tenhamos mais peças assim, até para que o público não seja somente de espectadores LGBTI+. Se eu assisto a peças em que o conflito é centrado em personagens heterossexuais, e isso nunca foi um problema para mim, por que o contrário seria?”, encerra o autorMuito bem, FELIPE! BRAVO!!!

RECOMENDO, COM MUITO EMPENHO, O ESPETÁCULO!!!

E VAMOS AO TEATRO!!!

OCUPEMOS TODAS AS SALAS DE ESPETÁCULO DO BRASIL!!!

A ARTE EDUCA E CONSTRÓI!!!

RESISTAMOS!!!

COMPARTILHEM ESTE TEXTO, PARA QUE, JUNTOS, POSSAMOS DIVULGAR O QUE HÁ DE MELHOR NO TEATRO BRASILEIRO!!!

Dúvidas, críticas ou sugestões, envie para gilberto.bartholo@rioencena.com.br.

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